Psiquiatria Senciente
Você já percebeu como, algumas vezes, somos muito mais duros ao julgar a nós mesmos do que seríamos ao avaliar outra pessoa? Pensamentos como “eu nunca faço nada direito”, “não sou bom o suficiente” ou “eu não vou conseguir” podem surgir de maneira tão automática e se repetir por tanto tempo que deixam de parecer apenas pensamentos. Aos poucos, podem começar a ser percebidos como verdades sobre quem somos.
Mas será que tudo aquilo que pensamos sobre nós mesmos corresponde, de fato, à realidade? Essa é uma das questões que podem ser trabalhadas por meio da Terapia Cognitiva Processual (TCP).
O que é a Terapia Cognitiva Processual?
A Terapia Cognitiva Processual, também conhecida pela sigla TCP, é uma abordagem psicoterapêutica desenvolvida pelo psiquiatra brasileiro Irismar Reis de Oliveira, a partir dos fundamentos das terapias cognitivas.
A TCP possui técnicas próprias e dedica atenção especial à identificação e ao trabalho com pensamentos, interpretações e crenças que influenciam a maneira como uma pessoa percebe a si mesma, os outros e aquilo que acontece ao seu redor.
Entre essas crenças podem estar ideias profundas como “eu sou incapaz”, “não sou digno de ser amado” ou “preciso agradar a todos”. Nem sempre temos consciência de que carregamos essas convicções. Muitas vezes, elas aparecem na forma como interpretamos situações cotidianas.
Uma crítica profissional, por exemplo, pode ser entendida apenas como uma observação sobre determinado trabalho. Mas, para alguém que carrega uma crença profunda de inadequação, a mesma crítica pode rapidamente se transformar em: “Eu sabia. Eu não sou bom o suficiente.”
É justamente essa relação entre acontecimentos, pensamentos, emoções e crenças que pode ser investigada durante o processo terapêutico.
Imagine que seus pensamentos precisassem apresentar provas
Uma das características mais interessantes da Terapia Cognitiva Processual é a utilização da metáfora de um processo judicial.
Imagine uma pessoa que acredita profundamente: “Eu sou incompetente.” Ao longo da vida, sua mente pode começar a selecionar acontecimentos que parecem confirmar essa conclusão. Um erro em uma tarefa vira uma prova. Uma crítica, outra. Uma oportunidade que não deu certo também.
Ao mesmo tempo, situações em que essa pessoa resolveu problemas, recebeu elogios, superou dificuldades ou demonstrou competência podem ser minimizadas ou simplesmente ignoradas. É como se existisse um julgamento acontecendo internamente, mas apenas a acusação tivesse direito de apresentar seu caso.
A TCP propõe ampliar esse julgamento. Não para provar artificialmente que tudo está bem, mas para permitir que diferentes evidências sejam consideradas antes que uma conclusão sobre si mesmo seja aceita como verdade absoluta.
Por que “Processual”?
O nome da abordagem está relacionado justamente a essa lógica de processo. Uma das técnicas utilizadas na TCP é o Registro de Pensamentos Baseado no Processo, no qual determinadas autoacusações e crenças são examinadas de maneira estruturada.
A inspiração dialoga com a obra O Processo, de Franz Kafka, em que o personagem Josef K. se vê envolvido em uma acusação que não compreende completamente. Na vida real, algo semelhante pode acontecer internamente: uma pessoa pode passar anos se sentindo inadequada, culpada ou insuficiente sem perceber claramente de onde surgiu essa conclusão — e muito menos se ela ainda faz sentido diante de sua história.
Pensamento não é necessariamente fato
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para compreender a TCP: pensar alguma coisa não significa necessariamente que aquilo seja verdade.
Nossa maneira de interpretar a realidade é influenciada pelas experiências que tivemos, pelos relacionamentos que construímos, pelas críticas que recebemos, por situações de rejeição ou acolhimento e por muitos outros acontecimentos ao longo da vida.
Se alguém desenvolveu a crença de que precisa ser perfeito para ser aceito, por exemplo, um pequeno erro pode provocar um sofrimento muito maior do que o próprio acontecimento justificaria. O problema talvez não esteja apenas no erro, mas no significado atribuído a ele: “Se eu errei, significa que sou incapaz.”
Reconhecer esse processo é um passo importante para começar a transformá-lo.
O que a TCP tem a ver com metacognição?
Um conceito importante nesse trabalho é o de metacognição, que pode ser entendido, de maneira simples, como a capacidade de observar e compreender os próprios processos mentais.
É perceber: “Estou tendo esse pensamento”, em vez de automaticamente concluir: “Isso é verdade”.
Essa diferença parece pequena, mas pode ser muito significativa. “Minha mente está me dizendo que eu não vou conseguir” é diferente de “Eu não vou conseguir”. A primeira frase permite investigação. A segunda já apresenta uma sentença.
A Terapia Cognitiva Processual pode contribuir justamente para desenvolver essa capacidade de observar pensamentos, compreender como determinadas conclusões foram construídas e investigar quais evidências realmente existem para sustentá-las.
TCP não significa pensar positivo
Existe uma ideia equivocada de que terapias cognitivas consistem simplesmente em substituir pensamentos negativos por pensamentos positivos. Não é esse o objetivo.
Se alguém acredita profundamente “eu sou incapaz”, simplesmente repetir “eu sou capaz” provavelmente terá pouco efeito se aquela nova afirmação não fizer sentido para a pessoa.
O trabalho terapêutico busca uma percepção mais ampla, consciente, flexível e compatível com as evidências. Algumas situações realmente são difíceis, algumas críticas são legítimas e algumas experiências provocam sofrimento. A proposta não é negar isso, mas evitar que um acontecimento específico seja automaticamente transformado em uma condenação sobre quem aquela pessoa é.
Terapia Cognitiva Processual e TCC são a mesma coisa?
Não exatamente. A Terapia Cognitiva Processual surgiu a partir dos fundamentos das terapias cognitivas e compartilha diversos princípios com a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), mas desenvolveu uma estrutura e técnicas próprias, especialmente no trabalho com crenças mais profundas sobre si mesmo.
Para quem está procurando tratamento, entretanto, talvez exista uma pergunta ainda mais importante do que saber qual abordagem é “melhor”: qual abordagem faz sentido para mim, para minha história e para este momento da minha vida?
A TCP é indicada para todo mundo?
Não necessariamente. Cada pessoa chega ao consultório trazendo uma história, sintomas, formas de lidar com as próprias emoções e objetivos diferentes para o tratamento.
Por isso, não acredito em uma técnica aplicada automaticamente a todos. Antes de escolher uma estratégia terapêutica, é importante compreender quem é aquela pessoa e o que está acontecendo naquele momento de sua vida.
Em alguns casos, conceitos e técnicas da Terapia Cognitiva Processual podem contribuir de maneira importante para o acompanhamento. Em outros, estratégias diferentes podem ser mais adequadas. A técnica precisa estar a serviço da pessoa — e não a pessoa a serviço da técnica.
Como utilizo a Terapia Cognitiva Processual na minha prática
Minha formação em Psiquiatria e em Terapia Cognitiva Processual influencia a maneira como compreendo e conduzo o acompanhamento de cada paciente. Durante minha formação em TCP, tive a oportunidade de aprender diretamente com o professor Irismar Reis de Oliveira, psiquiatra que desenvolveu a abordagem.
Esse conhecimento passou a fazer parte dos recursos que posso utilizar na prática clínica quando considero que fazem sentido para determinada pessoa. Mas a escolha nunca começa pela técnica. Começa pela escuta.
Procuro compreender o momento atual, a história daquele paciente, os sintomas apresentados, os padrões que vêm se repetindo, seus limites, seus recursos e aquilo que deseja transformar. A partir disso, podemos construir juntos um caminho terapêutico.
TCP dentro de uma Psiquiatria Senciente
A maneira como exerço a psiquiatria parte daquilo que chamo de Psiquiatria Senciente: uma prática que busca unir o conhecimento científico da medicina à escuta da singularidade de cada pessoa.
Um diagnóstico pode ser importante, mas não resume um indivíduo. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter histórias, necessidades e maneiras completamente diferentes de experimentar aquilo que estão vivendo.
Por isso, além dos sintomas, interessa compreender a pessoa que está por trás deles: como ela interpreta aquilo que acontece, quais padrões continuam se repetindo, quais crenças construiu sobre si mesma e como se relaciona com seus próprios pensamentos e emoções.
Nesse contexto, a Terapia Cognitiva Processual pode ser uma ferramenta especialmente interessante porque nos ajuda a investigar não apenas “o que você está sentindo?”, mas também “como você chegou a essa conclusão sobre si mesmo?” e “essa conclusão continua sendo justa diante de todas as evidências da sua história?”
Talvez o primeiro passo seja compreender
Nem sempre conseguimos identificar sozinhos por que determinados pensamentos, emoções ou comportamentos continuam se repetindo. Às vezes, sabemos apenas que alguma coisa não está bem.
Também não é necessário chegar à consulta conhecendo técnicas, diagnósticos ou sabendo exatamente qual tratamento procurar. A avaliação psiquiátrica pode ser justamente esse espaço inicial de compreensão: um momento para olhar para sua história, para aquilo que está acontecendo agora e para as possibilidades de cuidado que podem fazer sentido para você.
Medicação pode fazer parte do tratamento quando existe indicação. Psicoterapia e diferentes estratégias terapêuticas também podem fazer parte desse caminho. Cada caso precisa ser compreendido individualmente.
Se você percebe que determinados pensamentos, emoções ou padrões têm provocado sofrimento e sente que chegou o momento de compreender melhor o que está acontecendo, agende uma consulta e vamos conversar sobre o que faz sentido para você.
O cuidado que se adapta à sua realidade
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Minha formação em Medicina, com especialização em Psiquiatria e formação em Terapia Cognitiva Processual (TCP), sustenta um olhar clínico estritamente fundamentado na ciência.
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Sim. Caso haja indicação clínica e necessidade técnica durante o acompanhamento, a Dra. pode emitir laudos e atestados psiquiátricos detalhados para fins de perícia do INSS ou outros órgãos oficiais.
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Não. A medicação é uma ferramenta valiosa, mas utilizada de forma consciente e apenas quando há real necessidade clínica. O tratamento une a ciência médica à Terapia Cognitiva Processual (TCP), focando em compreender a história do paciente, desenvolver a metacognição e tratar a raiz do sofrimento psíquico para devolver a qualidade de vida, e não apenas remediar sintomas.
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